Livro O Pomar do Rei
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Arauto de Deus
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PRÓLOGO – ANTES DO AMANHECER
PRÓLOGO
ANTES DO AMANHECER
“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.” João 15:1
O Aprendiz chegou quando ainda era noite. Não saberia dizer em que momento a estrada começara a inclinar-se em direção ao vale. Durante algum tempo, caminhara apenas seguindo o Rei, vendo pouco além da porção de chão alcançada pela claridade fraca que antecede o amanhecer. A névoa repousava baixa sobre a terra, dissolvendo as formas à distância, e o frio conservava nas folhas pequenas gotas que só mais tarde refletiriam a luz.
Ele não sabia exatamente o que esperava encontrar. Talvez fileiras perfeitas de árvores. Talvez frutos maduros. Talvez algum grande sinal que justificasse a longa caminhada.
O que encontrou foi silêncio.
O Rei seguia alguns passos à frente. Não parecia apressado. Caminhava como quem conhecia cada curva do caminho mesmo quando nenhuma delas podia ser vista. O Aprendiz já havia aprendido a não confundir a lentidão do Rei com incerteza. Ainda assim, naquela manhã, desejava que Ele dissesse alguma coisa.
Não disse.
Depois de atravessarem uma pequena elevação, o caminho alargou-se. A névoa cedeu o suficiente para que uma extensão escura surgisse diante deles. O Aprendiz parou.
— É aqui?
O Rei voltou-se para ele.
— É.
Aquilo não se parecia com o que ele imaginara. À sua frente havia árvores, muitas delas altas demais para que seus contornos fossem distinguidos por inteiro na penumbra. Mas havia também espaços vazios, trechos de terra escura, caminhos estreitos e ramos despidos. Algumas árvores eram pequenas. Outras, antigas e espessas, tinham a copa desaparecendo na névoa. Em certos lugares, parecia não haver coisa alguma.
Nenhuma simetria perfeita. Nenhuma grande entrada. Nenhuma placa dizendo onde começava o Pomar.
O Aprendiz avançou devagar e, à medida que seus olhos se acostumavam à escuridão, começou a perceber detalhes que antes pareciam inexistentes. Havia sulcos junto ao caminho. A terra fora revolvida recentemente. Num ponto mais baixo, encontrou pedras empilhadas umas sobre as outras, ainda cobertas de barro úmido.
Abaixou-se e passou os dedos pelo solo. Estava frio, mas macio. Algumas marcas atravessavam a terra como cicatrizes recentes.
— Alguém esteve trabalhando aqui.
O Rei permaneceu ao seu lado. O Aprendiz observou as pedras. Eram grandes demais para terem sido retiradas pelo acaso. Algumas ainda conservavam terra aderida às cavidades. Mais adiante, pequenos montes de espinhos secos haviam sido reunidos junto a um caminho lateral. Um recipiente de madeira repousava deitado perto de um canal estreito, e a umidade ao redor mostrava que água passara por ali não muito antes.
Ele tornou a olhar para o Rei.
— Há quanto tempo?
O Rei não respondeu de imediato. Em vez disso, retomou a caminhada, e o Aprendiz levantou-se para segui-Lo.
A cada passo, encontrava novos vestígios. Uma estaca sustentava uma planta ainda frágil. Um galho quebrado fora cuidadosamente preso. Perto de uma árvore jovem, folhas secas haviam sido afastadas do tronco. Em outro ponto, a terra estava protegida por uma camada de palha que conservava a umidade sob a superfície.
O Aprendiz começou a prestar menos atenção às árvores e mais ao chão. Foi então que percebeu algo ainda mais estranho: algumas áreas pareciam ter recebido mais trabalho do que outras. Em certos trechos, pedras haviam sido removidas; em outros, a terra estava endurecida. Havia lugares cobertos por vegetação baixa e outros nos quais se podia ver apenas solo exposto.
Ele desejou perguntar o motivo, mas ainda não sabia formular a pergunta.
O céu começava a perder a cor da noite. Uma linha quase imperceptível de claridade surgia por detrás das colinas. O Rei parou diante de uma área de terra aparentemente vazia.
Ali não havia árvore. Não havia broto. Não havia folha. Nada que pudesse ser chamado de fruto. O Aprendiz passou algum tempo examinando o terreno.
— E aqui?
— O que você vê?
Ele já conhecia esse modo de responder. Sempre que o Rei devolvia uma pergunta, era porque uma resposta rápida faria o Aprendiz enxergar menos, não mais.
Olhou novamente.
— Terra.
O Rei esperou.
— Só terra — acrescentou ele.
A luz ainda era fraca, mas suficiente para revelar pequenas diferenças na superfície. Algumas partes estavam mais escuras. Outras haviam sido revolvidas. Havia uma linha rasa percorrendo um dos lados do terreno, como se água tivesse passado por ali. Próximo à borda, duas pedras grandes estavam depositadas fora da área cultivada.
O Aprendiz franziu a testa.
— Foi trabalhada.
O Rei não disse nada.
Ele se abaixou novamente. A terra cedeu facilmente à sua mão, e havia umidade alguns centímetros abaixo da superfície.
— Foi regada também.
Silêncio.
O Aprendiz levantou os olhos.
— Mas não há nada.
O Rei olhou para o terreno.
— Nada?
A pergunta o incomodou. Ele tornou a olhar. Não havia caule, folha ou qualquer sinal visível de que algo estivesse vivo ali. Se tivesse chegado sozinho, talvez tivesse atravessado aquele trecho sem sequer diminuir o passo.
— Não há nada que eu consiga ver — corrigiu.
O Rei voltou a caminhar. Dessa vez, o Aprendiz demorou alguns segundos antes de segui-Lo. A frase continuou com ele.
Nada que eu consiga ver.
Enquanto avançavam, começou a perceber o quanto dependia dos olhos para decidir o que era real. Uma árvore carregada de frutos parecia-lhe uma história completa. Uma árvore alta dava a impressão de ter sempre sido forte. Um terreno vazio, por outro lado, parecia não possuir história alguma.
Mas naquela manhã o Pomar lhe mostrava outra coisa.
As pedras haviam sido retiradas antes de sua chegada. A água penetrara no solo antes de sua chegada. Alguém havia reparado galhos antes de sua chegada. Mãos que ele não vira haviam revolvido a terra, e cuidados que ele não testemunhara haviam deixado marcas por toda parte.
Ele começava a suspeitar que entrara no meio de uma história e, por alguma razão, imaginara estar diante de seu começo.
Chegaram a uma árvore antiga. Sua copa era larga, mas irregular. Um dos lados possuía ramos mais baixos; o outro se projetava para a luz nascente. Havia cicatrizes no tronco, quase escondidas pela casca que crescera sobre elas.
O Aprendiz aproximou-se e passou a mão por uma das marcas.
— Quanto tempo leva para uma árvore ficar assim?
— Assim como?
Ele sorriu discretamente. O Rei fazia aquilo outra vez.
— Grande.
O Rei contemplou a árvore.
— Você acha que foi o tamanho que começou sua história?
O Aprendiz não respondeu. A pergunta parecia simples demais para exigir resposta e profunda demais para permitir uma.
Ele tentou imaginar aquela árvore antes do tronco, antes dos galhos, antes das folhas. Tentou imaginá-la quando nada havia acima do solo que pudesse chamar sua atenção. Pela primeira vez naquela manhã, compreendeu a estranheza de perguntar apenas pelo que conseguia ver.
Toda árvore diante dele possuía uma história enterrada.
Não apenas raízes.
História.
Alguma vez, aquele lugar fora terra aparentemente vazia. Alguma vez, ninguém poderia apontar para aquele tronco. Alguma vez, não havia sombra, fruto ou beleza visível. E mesmo então a história não começara necessariamente naquele instante.
O Rei deixou a árvore e seguiu em direção a um caminho mais estreito. O Aprendiz o acompanhou.
Agora o dia estava próximo. Os primeiros pássaros começavam a romper o silêncio, e o vale adquiria contornos que a noite havia escondido. O Pomar parecia crescer à medida que a luz aumentava.
Não porque novas árvores estivessem surgindo. Apenas porque ele finalmente conseguia vê-las.
A percepção o deteve. Olhou para trás. Pouco antes, aquela mesma extensão parecera quase vazia. Agora surgiam caminhos entre as árvores, pequenas elevações, áreas cultivadas, árvores jovens protegidas por estacas, outras cobertas de folhas e algumas ainda marcadas pela passagem de estações que ele não conhecia.
Nada daquilo passara a existir quando a luz chegou. A luz apenas permitira que ele percebesse o que já estava ali.
— Rei…
Cristo voltou-se.
O Aprendiz olhou novamente para o vale.
— Há quanto tempo este Pomar existe?
O Rei sustentou seu olhar por alguns instantes. Havia perguntas que Ele respondia imediatamente. Outras pareciam ser recebidas primeiro, como sementes colocadas na terra.
— Por que quer saber?
O Aprendiz pensou.
— Porque cheguei hoje.
O Rei assentiu.
— E?
Ele voltou a olhar para as árvores.
— Acho que estava confundindo minha chegada com o começo delas.
Nenhum elogio veio. Nenhuma explicação. O Rei apenas retomou o caminho, e o Aprendiz percebeu que aquilo bastava.
Continuaram andando enquanto o horizonte clareava. Em algum ponto, passaram por árvores cobertas de pequenos frutos ainda verdes. Mais adiante, uma delas não possuía fruto algum. O Aprendiz sentiu vontade de compará-las, mas algo daquela manhã o fez conter o julgamento.
Ainda havia histórias que ele não conhecia.
Quando chegaram a uma elevação no interior do Pomar, o sol começava finalmente a romper por detrás das colinas. A primeira luz atravessou o vale e tocou as copas mais altas.
O Aprendiz esperou que aquela paisagem o impressionasse por sua beleza.
Impressionou.
Mas não da maneira que imaginara.
Por alguns instantes, seus olhos foram naturalmente atraídos para as árvores maiores. A luz dourava suas folhas e recortava os ramos contra a névoa que se dissipava. Então ele olhou para o Rei.
Cristo não contemplava apenas as árvores maiores. Seu olhar atravessava todo o Pomar: as antigas, as jovens, as carregadas, as quase vazias, os lugares onde o solo estava coberto e aqueles onde aparentemente ainda não havia nada.
O Aprendiz pensou novamente nas palavras com que Cristo certa vez falara de Si mesmo e do Pai: a Videira verdadeira e o Agricultor. Durante muito tempo ele ouvira essa imagem como quem contempla ramos e frutos.
Naquele amanhecer, porém, a palavra que permaneceu em sua mente foi outra.
Agricultor.
Alguém cuidava daquele Pomar. Não um mecanismo. Não uma estação impessoal. Não a própria força das árvores.
O Pai cultivava.
O Rei estava ali e o Aprendiz havia sido convidado a caminhar.
Sentiu, então, a vergonha discreta de perceber que chegara procurando resultados. Imaginara que compreender o Pomar significaria aprender o segredo de suas árvores, identificar por que algumas eram fortes, descobrir como os frutos surgiam e talvez reunir princípios suficientes para reconhecer aquilo que fazia um Pomar prosperar.
Agora ainda não sabia responder a nenhuma dessas perguntas. Mas outra começava a parecer anterior a todas elas.
Não:
O que as árvores fizeram?
Nem sequer:
Como elas chegaram até aqui?
Mas:
O que estava acontecendo antes que qualquer coisa pudesse ser vista?
O Rei começou a descer a outra face da elevação. O Aprendiz foi atrás dEle. O caminho conduziu novamente a uma área baixa, onde a luz demoraria mais para chegar. Ali, protegido pela sombra das árvores antigas, havia outro pequeno terreno de terra escura.
Nenhuma folha rompia sua superfície. Nenhum caule. Nenhum fruto.
O Aprendiz parou. Dessa vez não disse que não havia nada. Observou os sulcos, a umidade, as pedras retiradas e um pequeno canal aberto junto à borda. Havia sinais de cuidado por toda parte.
O Rei já estava alguns passos adiante quando percebeu que o Aprendiz não o seguia. Voltou-se.
— Vem?
O Aprendiz olhou para Ele e depois novamente para a terra.
— O que está acontecendo aqui?
Cristo não respondeu. Apenas esperou.
Ao longe, o sol começava a alcançar aquele trecho do Pomar. E, pela primeira vez, o Aprendiz compreendeu que uma pergunta poderia ser uma forma de enxergar. Seguiu o Rei.
Atrás deles, a terra permaneceu em silêncio.
Ainda sem broto.
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