Livro Até que o Rei Apareça
1 Coríntios 15, 1 Tessalonicenses 4, Apocalipse, arrebatamento, Até que o Rei Apareça, Dia do Senhor, escatologia bíblica, Grande Tribulação, Igreja e tribulação, ira de Deus, Jamerson Silva Araújo, Mateus 24, pós-tribulacionismo, pré-ira, profecia bíblica, ressurreição dos mortos, reunião da Igreja, segunda vinda de Cristo, sinais do fim, última trombeta, volta de Cristo
Arauto de Deus
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CAPÍTULO 1 – A PERGUNTA QUE GOVERNA O FIM
CAPÍTULO 1
A PERGUNTA QUE GOVERNA O FIM
Dois cristãos podem abrir a mesma Bíblia, confessar o mesmo Salvador, esperar sinceramente sua volta e, ainda assim, imaginar de maneira muito diferente o que acontecerá quando a história se aproximar de sua consumação.
Um deles acredita que a Igreja será retirada da terra antes que a Grande Tribulação comece. Para ele, o arrebatamento e a manifestação pública de Cristo pertencem a momentos distintos: primeiro, o Senhor viria secretamente para buscar sua Igreja; depois, transcorrido um período de juízos e perseguições, apareceria visivelmente diante do mundo.
O outro entende que a Igreja atravessará a Grande Tribulação, será perseguida pelos poderes hostis e somente será reunida quando Cristo se manifestar publicamente, depois da tribulação e antes da consumação da ira divina. Para ele, a descida do Senhor, a ressurreição dos mortos, a transformação dos vivos e o ajuntamento dos eleitos fazem parte de um único grande acontecimento.
Ambos leem sobre trombetas, nuvens, ressurreição, eleitos, ira e manifestação. Ambos afirmam crer na autoridade das Escrituras. Ambos podem citar passagens conhecidas. A divergência não nasce necessariamente da falta de reverência ou do desprezo pela Palavra. Ela nasce, em grande parte, da maneira como as passagens são relacionadas e da ordem em que as perguntas são feitas.
Por isso, antes de discutirmos respostas, precisamos identificar a pergunta que governa o debate.
A questão mais importante não é simplesmente se a Igreja passará pela Grande Tribulação.
Essa pergunta é legítima, mas ainda é insuficiente. Ela pode esconder outras questões que precisam ser respondidas primeiro. O que a Bíblia chama de tribulação? Toda tribulação é manifestação da ira de Deus? A perseguição sofrida pelos santos e o julgamento dos perseguidores pertencem ao mesmo lado do conflito? Em que momento aparecem os sinais cósmicos? Quando ocorre a ressurreição? O que Jesus quis dizer quando anunciou o ajuntamento dos eleitos? A manifestação pública do Filho do Homem e o arrebatamento são acontecimentos separados ou dimensões de uma mesma vinda?
A pergunta que verdadeiramente governa esta obra é mais precisa:
Em que momento da sequência revelada pelas Escrituras ocorre a ressurreição e a reunião do povo de Deus?
Essa pergunta nos obriga a observar a ordem dos acontecimentos. Ela não permite que comecemos por uma posição pronta e apenas procuremos versículos que a confirmem. Exige que coloquemos diante de nós os textos centrais e perguntemos como cada um descreve a consumação.
Jesus falou de uma Grande Tribulação, de sinais no sol, na lua e nas estrelas, da manifestação do Filho do Homem nas nuvens, de uma grande trombeta e do ajuntamento dos eleitos (Mt 24.21,29–31).
Paulo escreveu que o Senhor mesmo desceria do céu com alarido, voz de arcanjo e trombeta de Deus; os mortos em Cristo ressuscitariam primeiro, e então os vivos seriam reunidos com eles para encontrar o Senhor nos ares (1Ts 4.16–17).
Aos coríntios, o apóstolo revelou um mistério: nem todos dormiriam, mas todos seriam transformados, num momento, à última trombeta, quando os mortos ressuscitariam incorruptíveis e os vivos seriam revestidos de imortalidade (1Co 15.51–54).
João viu o sol escurecer, a lua tornar-se como sangue, as estrelas caírem, o céu retirar-se como um livro e a humanidade esconder-se diante da face daquele que estava no trono e da ira do Cordeiro. Mais adiante, ouviu a sétima trombeta proclamar que o Reino do mundo havia se tornado do Senhor e do seu Cristo, que a ira chegara, que os mortos seriam julgados e que os santos receberiam sua recompensa (Ap 6.12–17; 11.15–18).
Essas passagens não podem ser simplesmente amontoadas como se não existissem diferenças entre elas. Cada autor possui seu contexto, seu propósito e sua linguagem. Mateus registra o sermão de Jesus. Paulo consola enlutados e ensina sobre a ressurreição. João contempla visões simbólicas e ciclos de julgamento. A fidelidade bíblica exige que cada texto seja ouvido em sua própria voz.
Ao mesmo tempo, essas vozes não pertencem a revelações concorrentes. Elas fazem parte da mesma Escritura. Por isso, depois de respeitar as diferenças, também precisamos observar as convergências.
Em mais de uma passagem, encontramos:
-
- tribulação;
- sinais cósmicos;
- manifestação nas nuvens;
- trombeta;
- ressurreição;
- transformação;
- reunião do povo de Deus;
- julgamento dos rebeldes;
- recompensa dos santos;
- manifestação do Reino.
A presença conjunta desses elementos exige investigação. Alguns podem descrever acontecimentos distintos; outros podem apresentar perspectivas complementares do mesmo momento. A separação ou aproximação entre eles deverá nascer dos textos, e não de uma distância já imposta pelo sistema.
UMA CRONOLOGIA RECEBIDA ANTES DE SER DEMONSTRADA
Muitos cristãos aprenderam sua escatologia antes de lerem cuidadosamente as passagens que a compõem. Receberam uma linha do tempo pronta, geralmente acompanhada por gráficos, setas, intervalos e divisões bem definidas. Dentro dessa linha, cada texto já possui lugar determinado.
O arrebatamento aparece em um ponto. A Grande Tribulação começa depois. A manifestação pública de Cristo vem anos mais tarde. Israel ocupa uma seção; a Igreja, outra. Os selos, as trombetas e as taças são organizados em uma sequência estritamente consecutiva. Quando o leitor finalmente abre a Bíblia, não se aproxima apenas com perguntas. Ele já possui o mapa no qual as respostas deverão caber.
Todo esquema é um instrumento provisório. A mente humana precisa organizar informações, e qualquer interpretação escatológica formará alguma sequência. O mapa cumpre sua função quando permanece subordinado ao texto e pode ser corrigido por ele.
Uma cronologia bíblica precisa ser demonstrada pela comparação das passagens.
Imagine que alguém comece afirmando que a Igreja precisa ser retirada antes da tribulação. A partir dessa premissa, os eleitos reunidos depois da tribulação em Mateus 24 não poderão ser cristãos. Precisarão representar outro grupo. A trombeta de Mateus não poderá ser a mesma de Paulo. A ressurreição de 1 Tessalonicenses 4 deverá ocorrer anos antes da manifestação pública. Os santos perseguidos em Apocalipse não poderão pertencer à Igreja. Apocalipse 3.10 deverá significar obrigatoriamente remoção física anterior.
Observe o movimento: a conclusão inicial começa a determinar a identidade dos personagens e o significado das passagens.
O caminho inverso é mais seguro. Primeiro perguntamos quem são os eleitos no contexto do Evangelho. Depois observamos a ordem apresentada por Jesus. Examinamos o que Paulo diz sobre a descida do Senhor, a ressurreição e a reunião. Investigamos o que significa ser guardado da hora da provação. Distinguimos tribulação e ira. Somente então permitimos que uma sequência se forme.
A escatologia deve nascer do terreno das Escrituras; o mapa é construído depois da análise do terreno.
O VOCABULÁRIO QUE PRECISAMOS RECUPERAR
Parte da confusão existente no debate decorre do uso impreciso das palavras. Termos diferentes são tratados como sinônimos, enquanto expressões relacionadas são separadas como se não possuíssem qualquer conexão.
Antes de avançarmos, precisamos estabelecer um vocabulário inicial. As definições serão aprofundadas nos capítulos seguintes, mas desde já é necessário saber em que sentido geral certas palavras serão empregadas.
Tribulação
Na Escritura, tribulação pode descrever pressão, aflição, perseguição, sofrimento e angústia. Jesus prometeu aos discípulos que, no mundo, teriam aflições. Os apóstolos ensinaram que por muitas tribulações os cristãos entrariam no Reino de Deus (Jo 16.33; At 14.22). A presença da tribulação, portanto, não significa necessariamente que Deus esteja condenando aqueles que a sofrem.
Há também uma tribulação de caráter culminante, descrita por Daniel e retomada por Jesus como um tempo de angústia incomparável. Essa Grande Tribulação está relacionada à intensificação da perseguição, ao engano religioso e à oposição dos poderes hostis contra os santos (Dn 12.1; Mt 24.21–24).
Nesta obra, tribulação designará aflição e perseguição; a ira divina será tratada como categoria judicial distinta.
Ira
A ira de Deus não é irritação descontrolada nem violência impulsiva. É sua resposta santa e judicial ao pecado, à incredulidade e à rebelião. A Escritura afirma que a ira permanece sobre aquele que não crê no Filho, mas também declara que os justificados pelo sangue de Cristo serão salvos da ira (Jo 3.36; Rm 5.9).
Esse livramento está fundamentado na cruz. A Igreja não é poupada da ira porque possui mérito, conhecimento profético superior ou capacidade de identificar datas. É salva da condenação porque Cristo suportou o juízo devido aos que nele creem, levando em seu corpo os nossos pecados (Rm 3.24–26; 1Pe 2.24).
Ao mesmo tempo, Apocalipse apresenta outras formas de fúria, hostilidade e violência. O Dragão se enfurece contra a descendência da mulher. A Besta guerreia contra os santos. Os habitantes da terra perseguem e matam as testemunhas (Ap 12.17; 13.7–10). Essas ações são reais, terríveis e permitidas dentro da soberania divina, mas não devem ser confundidas com a ira condenatória de Deus contra os próprios santos.
Manifestação de Cristo
Quando falarmos da manifestação de Cristo, estaremos nos referindo ao aparecimento público e glorioso do Filho do Homem. Jesus descreveu sua vinda nas nuvens com poder e grande glória. Paulo falou da revelação do Senhor Jesus desde o céu. João mostrou a humanidade reconhecendo a face daquele que estava no trono e a ira do Cordeiro (Mt 24.30; 2Ts 1.7–10; Ap 6.15–17).
A manifestação não é uma ideia abstrata. É o aparecimento do Rei que o mundo julgava ausente.
Ressurreição
A esperança cristã não consiste apenas na sobrevivência da alma depois da morte. Ela inclui a ressurreição do corpo. Os mortos em Cristo serão levantados incorruptíveis. A morte não será apenas contornada; será vencida (1Co 15.42–57).
A ressurreição possui importância decisiva para a questão do arrebatamento, porque Paulo afirma que os mortos em Cristo ressuscitam antes que os santos vivos sejam reunidos com eles (1Ts 4.16–17). Não podemos construir uma doutrina da reunião da Igreja que trate a ressurreição como detalhe secundário.
Transformação
Nem todos os santos experimentarão a morte antes da vinda do Senhor. Os que estiverem vivos serão transformados. O corpo mortal será revestido de imortalidade, e o corruptível, de incorruptibilidade (1Co 15.51–54).
Ressurreição e transformação formam, portanto, duas dimensões da mesma vitória. Os mortos são levantados; os vivos são transformados; todos participam da condição necessária para permanecer eternamente na presença do Rei.
Arrebatamento
A palavra “arrebatamento” descreve a ação pela qual os santos são tomados e reunidos para encontrar o Senhor nos ares. O termo é legítimo e expressa um acontecimento claramente ensinado em 1 Tessalonicenses 4.17.
A questão não é se haverá arrebatamento. A questão é quando ele ocorre e como se relaciona com:
-
- a descida do Senhor;
- a ressurreição;
- a transformação;
- a manifestação pública;
- o ajuntamento dos eleitos;
- o Dia do Senhor.
O debate não está entre aqueles que creem e aqueles que negam o arrebatamento. Está entre diferentes compreensões de sua localização dentro da sequência escatológica.
Dia do Senhor
O Dia do Senhor é o grande horizonte da intervenção divina. Nos Profetas, ele aparece associado a trevas, abalos, trombeta, julgamento das nações, humilhação do orgulho, libertação do povo e manifestação do governo de Deus (Is 2.10–21; Jl 2.1,30–31; Sf 1.14–18).
Esse Dia pode ser antecipado por juízos históricos, mas encontra sua plenitude na consumação. Ele possui uma dupla face: é terror para os rebeldes e refúgio para os que pertencem ao Senhor. A mesma manifestação que concede descanso aos atribulados produz retribuição sobre os que os perseguem (Jl 3.12–16; 2Ts 1.5–10).
A TESE DESTE LIVRO
A posição defendida ao longo desta obra pode ser resumida da seguinte maneira:
Os quatro cavaleiros apresentam uma visão panorâmica da era da Igreja. Suas forças surgem no horizonte apostólico, reaparecem de maneira recorrente e frequentemente simultânea e caminham para uma expressão culminante.
O cavalo branco representa a proclamação vitoriosa do Evangelho, realizada pelo Espírito Santo por meio da Igreja. O cavalo vermelho representa a guerra, a violência e a retirada da paz, incluindo em seu campo a perseguição contra os discípulos de Cristo. O cavalo preto representa primariamente fome, inflação, racionamento e opressão econômica; em dimensão canônica e eclesiológica, também ilumina a restrição e a adulteração da Palavra. O cavalo amarelo-esverdeado representa Morte e Hades, abrangendo mortandade, peste, espada e desintegração; a apostasia institucional é uma manifestação espiritual desse domínio, não a identidade exclusiva do cavaleiro (Ap 6.1–8).
A proclamação encontra oposição. A oposição produz perseguição. A violência, a fome, a morte e a apostasia formam o ambiente no qual a Igreja é chamada a testemunhar. Os mártires clamam por vindicação, mas a resposta revela que outros santos ainda sofrerão. A vingança consumadora ainda está diante deles (Ap 6.9–11).
Depois da tribulação e da perseguição final, os sinais cósmicos anunciados pelos profetas aparecem. O Filho do Homem se manifesta. A trombeta soa. Os mortos em Cristo ressuscitam. Os santos vivos são transformados. Os eleitos são reunidos. A manifestação que concede descanso ao povo de Deus também inaugura ou manifesta a retribuição contra seus perseguidores (Mt 24.29–31; 1Ts 4.16–17; 2Ts 1.5–10).
A grande trombeta de Mateus 24, a trombeta de Deus de 1 Tessalonicenses 4, a última trombeta de 1 Coríntios 15 e a sétima trombeta de Apocalipse 11 serão examinadas como possível revelação de um mesmo limiar escatológico. A convergência entre manifestação, ressurreição, reunião, Reino, recompensa e ira produz uma inferência canônica relevante; não constitui equivalência textual declarada por cada passagem.
Jesus coloca o ajuntamento dos eleitos depois da tribulação. Na síntese defendida nesta obra, a comparação canônica desenvolvida adiante sustenta que a reunião da Igreja antecede a consumação plena da ira divina sobre os impenitentes. Assim, a Igreja atravessa a tribulação causada pelos poderes hostis, mas não é objeto da ira condenatória do Cordeiro.
Por isso, a posição defendida aqui pode ser descrita como:
-
- histórico-eclesiológica na leitura dos cavaleiros;
- recapitulativa na compreensão da estrutura de Apocalipse;
- pós-tribulacional quanto à manifestação e reunião;
- pré-consumação da ira quanto ao livramento da Igreja.
Essa formulação evita duas confusões: a Igreja pode atravessar sofrimento e perseguição sem ser objeto da condenação divina; ao mesmo tempo, será reunida antes que a ira alcance sua consumação sobre o mundo rebelde.
Essa distinção encontra sua forma pastoral na frase que governará a obra:
A Igreja pode ser objeto da ira do Dragão, da Besta e dos homens, mas jamais será objeto da ira condenatória do Cordeiro.
A ESPERANÇA DIANTE DA TRIBULAÇÃO
Para muitos leitores, a possibilidade de a Igreja atravessar a tribulação final produz inquietação imediata. A doutrina do arrebatamento anterior à tribulação não foi recebida apenas como uma conclusão cronológica; para muitos cristãos, ela se tornou uma fonte de consolo. Por isso, retirá-la de seu lugar habitual pode parecer o mesmo que retirar a esperança. Essa reação merece respeito.
A Escritura não nos chama a desejar perseguição. O sofrimento não deve ser romantizado, e ninguém deveria falar levianamente sobre martírio quando vive em segurança. Prisão, tortura, fome, separação familiar e morte são realidades terríveis. A Igreja deve orar por paz, defender os perseguidos, socorrer os que sofrem e pedir que Deus abra portas para a proclamação.
Entretanto, a esperança cristã nunca foi construída sobre a promessa de que os discípulos não seriam odiados pelo mundo. Jesus lhes disse exatamente o contrário. O consolo apostólico não consistia na certeza de que nenhum cristão seria preso ou morto, mas na convicção de que nenhuma tribulação poderia separá-los do amor de Deus em Cristo (Jo 15.18–21; Rm 8.35–39). A esperança não se torna menor quando deixa de repousar na ausência de sofrimento e passa a repousar na presença fiel do Senhor.
O cristão perseguido não é alguém de quem Cristo se esqueceu, e o mártir não é um santo que perdeu a proteção divina. Quando o mundo mata uma testemunha, pode alcançar seu corpo, mas não pode anulá-la diante de Deus. O quinto selo mostra os mortos recebendo vestes brancas, revelando que a aparente derrota na terra é reconhecida como vitória no céu (Ap 6.9–11).
A proteção prometida por Cristo é mais profunda do que a simples manutenção da vida presente. Ele pode preservar fisicamente, abrir portas, deter perseguidores e livrar da morte. Quando, porém, permite que seus servos sejam mortos, continua sendo o Guardião de sua fé, o Senhor de sua ressurreição e o Juiz de seus perseguidores. Uma escatologia que prepara a Igreja apenas para escapar pode deixá-la espiritualmente desarmada caso a perseguição chegue. Uma escatologia bíblica deve prepará-la para permanecer fiel, seja por meio do livramento, seja diante da prisão, seja até a morte.
A bem-aventurada esperança está centrada no aparecimento da glória de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2.13): é a certeza de que veremos o Senhor, de que nossos corpos serão ressuscitados e de que nenhum ódio poderá impedir nossa reunião com ele. Ela não depende da promessa de intocabilidade, mas da vitória daquele que conserva seus santos.
UMA MANIFESTAÇÃO, DOIS EFEITOS
Uma das chaves fundamentais desta obra será reconhecer que o mesmo aparecimento de Cristo pode produzir efeitos diferentes para grupos diferentes. Quando o Senhor se manifesta, os santos recebem descanso, libertação, ressurreição, transformação e recompensa, enquanto os perseguidores recebem retribuição. Para o povo de Deus, o Dia é refúgio; para os rebeldes, é trevas. Para os mártires, é vindicação; para os habitantes da terra, é o momento em que suas falsas seguranças desmoronam (Am 5.18–20; Jl 3.12–16; 2Ts 1.5–10).
A matriz profética apresenta repetidamente a mesma intervenção como salvação para uns e juízo para outros. O dilúvio que julgou o mundo elevou a arca, e o mar que abriu caminho para Israel caiu sobre o exército do Egito (Gn 7.17–24; Êx 14.21–31). A manifestação da glória que consola os santos aterroriza seus perseguidores, e a presença do Rei revela quem pertence ao Reino e quem permaneceu em rebelião.
Essa dupla natureza do Dia será decisiva quando examinarmos a afirmação de que as trombetas de Paulo seriam necessariamente diferentes das trombetas de João porque uma representa bênção e a outra, juízo. Talvez a diferença não esteja no acontecimento em si, mas nos destinatários de seus efeitos.
OS LIMITES DESTA INVESTIGAÇÃO
Esta obra buscará convicção proporcional às evidências. Algumas conclusões serão apresentadas como declarações textuais diretas; outras, como convergências fortes, inferências relevantes ou correspondências possíveis. Detalhes que a Escritura não resolve permanecerão abertos.
A vigilância será tratada como fidelidade, não como autorização para identificar a cada geração o Anticristo definitivo, a marca da Besta ou a data da consumação. A história está repleta de previsões fracassadas produzidas pela confusão entre urgência espiritual e cálculo.
Guerras, fomes, pestes, perseguições e apostasias poderão ilustrar as forças dos cavaleiros sem que cada ocorrência seja convertida na abertura exclusiva de um selo naquele momento.
As dificuldades da tese serão enfrentadas diretamente. A relação entre o sexto selo e a sétima trombeta exige uma estrutura não estritamente linear; a leitura evangelística do cavalo branco enfrenta objeções legítimas; a comparação das trombetas depende de convergência; e Apocalipse 3.10 requer atenção lexical, contextual e canônica.
Uma tese bíblica se fortalece quando reconhece tensões, mantém seus princípios visíveis e atribui a cada evidência somente o peso que ela pode carregar.
A PERGUNTA VOLTA PARA NÓS
A escatologia pode facilmente se transformar em uma tentativa de organizar o futuro sem permitir que o futuro revelado por Deus organize nossa vida presente. Podemos discutir a identidade do cavalo branco e deixar de proclamar o Evangelho; estudar a perseguição e permanecer incapazes de suportar qualquer rejeição; denunciar a fome da Palavra e continuar alimentando a Igreja com superficialidade; identificar a apostasia em instituições distantes e não perceber a morte escondida sob nossa própria reputação religiosa.
Também podemos debater a última trombeta e viver como se a ressurreição não tivesse consequências para nossas escolhas. Podemos defender a volta de Cristo e, na prática, desejar que ele demore porque construímos nossa esperança inteiramente neste mundo.
Por isso, a pergunta sobre quando a Igreja será reunida conduz inevitavelmente a outra:
Que tipo de Igreja Cristo deseja encontrar quando se manifestar?
Uma Igreja distraída com cálculos, convencida de que não precisa preparar-se para sofrer e rica em esquemas, mas pobre em perseverança? Ou uma Igreja que vence pelo sangue do Cordeiro, pela palavra de seu testemunho e pela disposição de não amar a própria vida até a morte (Ap 12.11)?
O objetivo desta obra não será apenas colocar acontecimentos em ordem, mas mostrar como essa ordem revela o caráter de Deus, a missão da Igreja, o destino dos santos e a vitória do Cordeiro.
Antes de examinarmos os cavaleiros, os selos e as trombetas, precisamos estabelecer como essa investigação será conduzida. Por isso, distinguiremos declaração textual direta, convergência canônica forte, inferência canônica relevante e correspondência possível; aplicação histórico-eclesiológica e tipologia serão tratadas como modos de leitura, não como graus autônomos de certeza.
Essa disciplina permitirá avançar com convicção no que é claro e humildade no que permanece inferencial.
Antes de construir a sequência, precisamos aprender a ler. E, antes de perguntar quando o fim acontecerá, precisamos nos submeter à maneira como Deus escolheu revelá-lo.
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