Capítulo 3 – A Palavra de Deus (A Voz de Deus)

Vamos avançando em nossa Jornada ao Santuário. Aos poucos, estamos explorando o caminho que nos leva a Cristo Jesus, para que todos possamos estar unidos no santuário.

No Alicerce Eterno, estamos falando sobre a Palavra de Deus — sua verdadeira essência, quem ela é de fato. E a realidade é que a Palavra é o Filho de Deus, aquele que veio do Pai, que desceu até a Terra e assumiu a nossa natureza. É essa Palavra, emanada do Pai, que Deus usou para criar e sustentar todas as coisas.

Estou destacando este ponto para aqueles que ainda não conhecem ou compreendem quem é Cristo. Muitas vezes, Jesus é visto apenas como um filósofo, um professor, um mestre, um profeta para os muçulmanos ou como um espírito evoluído para os espíritas. Mas, para nós cristãos, Ele é Deus, a segunda pessoa da Trindade. Ele veio, assumiu a nossa natureza e se colocou em nosso lugar para nos dar a oportunidade de reconciliação com o Pai. O intuito dessa jornada que eu estou construindo com você é informar e facilitar o encontro com Cristo.

No capítulo anterior, falamos sobre Jesus como a Palavra de Deus. Agora, vamos explorar a Palavra de Deus como a comunicação verbal do próprio Deus. Em essência, essa Palavra ainda é Jesus, mas Deus usou essa Palavra — o próprio Filho — para criar, trazer à existência e exercer Seu poder criador. Houve, então, uma comunicação verbal, uma emanação de som, e foi essa Palavra com autoridade e poder que criou todas as coisas conforme a vontade de Deus.

Neste capítulo, abordaremos o contexto da Palavra de Deus ligada ao som, à voz e à manifestação verbal. Em seguida, passaremos para a Bíblia em si — a forma mais comum pela qual as pessoas conhecem a Palavra de Deus.

Quando perguntamos a um cristão leigo, seja ele católico ou evangélico, o que é a Palavra de Deus, ele geralmente responde: “É a Bíblia.” Isso porque a Sagrada Escritura é a forma mais acessível e concreta da Palavra para ele. Aqueles que estudam teologia ou têm uma compreensão mais aprofundada conseguem discernir que, essencialmente, a Palavra é Jesus, que se fez carne; para eles, Jesus é a expressão primeira, seguida pela Bíblia.

Estamos adiando o estudo da Bíblia em si, não porque ela seja menos importante, mas para trazer uma compreensão mais completa. Desde o início, temos usado a Bíblia como o fundamento de tudo que apresentamos sobre o que é a Palavra de Deus, seja em sua essência como Cristo ou como comunicação verbal. É nas Escrituras que encontramos os versículos e argumentos que fundamentam cada ponto discutido aqui.

Portanto, a Bíblia é de extrema importância. Ela é quem carregamos, lemos, meditamos e estudamos hoje como a Palavra de Deus. E essa parte abordaremos no próximo capítulo.

Agora, vamos tratar da Palavra de Deus como comunicação verbal, que pode ser encontrada na Bíblia em três formas distintas. Mas o que é essa comunicação verbal? É a manifestação da Palavra de Deus por meio de som, expressada pela Sua voz, que revela Seu poder, propósito e vontade. Essa é uma definição básica para entendermos o que significa a comunicação verbal de Deus.

Essas três formas de comunicação verbal estão presentes nas Escrituras. Afinal, é a própria Bíblia que nos instrui sobre esse aspecto. Se não tivéssemos a Bíblia hoje, mais de dois mil anos após a ascensão de Jesus ao céu, estaríamos quase no escuro sobre Deus, Cristo e a teologia. Não teríamos as bases sólidas para formar uma compreensão completa dos propósitos e dos planos de Deus. Assim, a Bíblia é a fonte que nos permite identificar esses tipos de comunicação verbal divina, mostrando o uso que Deus faz de Sua voz e da emissão de som para criar todas as coisas.

Ao longo desta Jornada ao Santuário, usaremos a Bíblia como fundamento e alicerce para construir e explorar nossas ideias sobre a Palavra de Deus. É por isso que dedico este momento para destacar a importância da Palavra: não apenas como pessoa (Cristo) e comunicação verbal, mas também como o próprio conteúdo escrito, ou seja, a Bíblia em si. Todo o nosso estudo estará enraizado nesse texto sagrado, que é digno de confiança, sobrenatural, transformador e poderoso.

Se a Bíblia não for vista como algo além de um simples livro, como um testemunho sobrenatural e digno de confiança que revela a verdade de Deus, não haverá valorização. É essa base sólida que possibilitará nossa compreensão e que fundamentará nossa jornada.

Os três tipos de comunicação verbal de Deus são os decretos divinos, as palavras de aplicação pessoal e as palavras transmitidas por lábios humanos. Vamos abordar cada uma dessas formas em separado.

Decretos de Deus

Os decretos de Deus são palavras poderosas que, ao serem proferidas, causam eventos ou trazem à existência aquilo que Ele determina. Vemos esses decretos logo em Gênesis 1, onde Deus cria todas as coisas a partir do nada. Em Gênesis 1:3, lemos: E disse Deus: Haja luz, e houve luz.” E novamente em Gênesis 1:24: E disse Deus: Produza a terra seres vivos conforme a sua espécie… —e assim aconteceu. Aqui, os decretos de Deus chamam a existência o que antes não existia, estabelecendo as ordens da criação.

Além de criar, esses decretos divinos sustentam e mantêm todas as coisas. Em Hebreus 1:3, está escrito:

O Filho irradia a glória de Deus e expressa de forma exata o que Deus é, e, com sua palavra poderosa, sustenta todas as coisas. Depois de nos purificar dos pecados, Ele se assentou no lugar de honra à direita do Deus majestoso no céu.”

Aqui, vemos que é por meio de Cristo, a Palavra viva de Deus, que tudo é sustentado. Ele não apenas cria, mas também mantém a criação por meio de Sua Palavra, cumprindo tanto o papel de Criador quanto de mantenedor de todas as coisas.

Para compreender melhor, vamos ver Hebreus 1:1-3 no contexto:

1 Por muito tempo Deus falou várias vezes e de diversas maneiras a nossos antepassados por meio dos profetas.

2 E agora, nestes últimos dias, ele nos falou por meio do Filho, o qual ele designou como herdeiro de todas as coisas e por meio de quem criou o universo.

Assim, o Filho, Jesus, é a Palavra que não só deu origem a tudo, mas que também sustenta o universo. Logo, os decretos divinos não são apenas atos criadores, mas também atos sustentadores de todas as coisas, executados pela Palavra de Deus.

Nos próximos tópicos, falaremos sobre a Palavra de Deus aplicada pessoalmente e, depois, sobre a Palavra de Deus transmitida pelos lábios humanos.

A Palavra de Deus de Aplicação Pessoal

O que significa a palavra de Deus de aplicação pessoal? Isso acontece quando Deus fala diretamente, não por intermédio de outra pessoa ou via decretos de criação. Ele usa Sua própria voz para se comunicar com alguém de maneira direta. Essa é a essência da aplicação pessoal—Deus falando especificamente para uma pessoa ouvir e entender, em um contexto de orientação ou instrução pessoal.

Podemos pensar em exemplos bíblicos, como Deus falando com Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e até mesmo com Adão e Eva. Em Gênesis 2:16-17, lemos:

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; pois, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

Este é um exemplo clássico de aplicação pessoal: Deus falando diretamente com Adão para instruí-lo. A Bíblia relata várias ocasiões em que Deus falou assim, como na Sua comunicação com Abraão ou quando apareceu a Moisés na sarça ardente.

Esse tipo de comunicação às vezes ocorria por meio de uma presença física (teofanias), mas também em sonhos e visões. Em alguns momentos, o relato bíblico não especifica exatamente como essa voz de Deus foi transmitida—se era uma visão, um sonho, uma presença angelical ou outra manifestação. O importante é que Deus usava essas formas variadas de comunicação para trazer instrução pessoal e direta aos Seus servos.

Vamos pensar agora em exemplos de aplicação pessoal da palavra de Deus no Novo Testamento. Um momento emblemático é o batismo de Jesus, em Mateus 3:17:

17E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.

Outro exemplo está em Mateus 17:5, quando Deus fala durante a transfiguração de Jesus:

5 Enquanto ele ainda falava, uma nuvem luminosa os envolveu, e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado. Ouçam-no!

Este é o momento em que Jesus se transfigura no monte, e Deus orienta Pedro e os demais a prestar atenção em Jesus, interrompendo a conversa de Pedro para que ouvissem o Filho.

Agora, vejamos um exemplo de Jesus usando a aplicação pessoal da palavra, assim como o Pai fez. Em Atos 9:1-6, encontramos o único momento em que Jesus, já ressuscitado e glorificado, fala diretamente com alguém de maneira poderosa e pessoal, revelando Sua vontade:

1 E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote.

2 E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.

3 E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.

4 E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

5 E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.

6 E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.

Neste relato, Jesus fala diretamente com Saulo (futuro apóstolo Paulo), sem estar fisicamente presente, mas emana Sua palavra com autoridade, revelando-Se e instruindo-o. Essa é uma manifestação pessoal semelhante à que o Pai usou, deixando claro que Jesus, mesmo ressuscitado, ainda se comunica de forma direta e poderosa com Seus servos.

A Palavra de Deus Transmitida pelos Lábios Humanos

Deus frequentemente utilizava pessoas para comunicar Sua vontade. Não era a própria voz d’Ele falando diretamente, mas sim através de alguém. Nas Escrituras, vemos com frequência Deus levantando profetas para falar em Seu nome. Mesmo sendo palavras pronunciadas por seres humanos, elas não perdeiam autoridade ou veracidade; continuavam sendo a Palavra de Deus.

No Antigo Testamento, Deus escolhia indivíduos específicos para transmitir Suas orientações e mandamentos. Quando o profeta dizia “assim diz o Senhor”, ele atuava como porta-voz de Deus, e as pessoas escutavam como se fosse o próprio Deus falando.

Um exemplo claro de um profeta escolhido por Deus é Jeremias. Em Jeremias 1:4-7, está registrado o chamado de Jeremias:

4 Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:

5 Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.

6 Então disse eu: Ah, Senhor DEUS! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino.

7 Mas o Senhor me disse: Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás.

Este é o papel do profeta no Antigo Testamento: ser um representante de Deus na Terra, transmitindo Suas ordens e orientações para guiar o povo e os líderes de Israel. Deus escolhia homens que tinham uma profunda comunhão com Ele, que viviam em obediência, para representá-Lo no meio da sociedade e comunicar a Sua vontade de forma audível.

Agora lhes sugiro uma pergunta: quem foi o maior profeta enviado por Deus? Jesus testemunha que, entre os nascidos de mulher, não houve ninguém maior que João Batista. Contudo, o próprio Jesus é o maior de todos os profetas. Ele é o Sumo Sacerdote e o Rei dos reis, cumprindo todos os ministérios e sendo a maior expressão da revelação de Deus.

Em Deuteronômio, Deus ordenou que Moisés registrasse uma promessa: um profeta surgiria no meio do povo de Israel, e todos deveriam ouvi-Lo, pois Ele falaria em nome de Deus. Em Deuteronômio 18:18-19, está escrito:

“E lhe suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, Eu o requererei dele.”

Esta profecia apontava diretamente para Jesus Cristo. No Novo Testamento, quando os fariseus perseguiram a Cristo, Ele lembrou essa profecia, reivindicando seu cumprimento n’Ele mesmo. Em João 5:45-47, Jesus diz:

45 Não cuideis que eu vos hei de acusar para com o Pai. Há um que vos acusa, Moisés, em quem vós esperais.

46 Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.

47 Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?

Jesus deixa claro que Ele é o cumprimento da profecia de Deuteronômio. Ele mesmo afirma em João 12:49-50:

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo, mas o Pai que me enviou, Ele me deu mandamento sobre o que é de dizer e sobre o que é de falar. E sei que o Seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo como o Pai me tem dito.”

Jesus é a encarnação da voz de Deus na Terra. Ele era o porta-voz de Deus Pai, apenas repetindo e transmitindo a vontade divina. Em Hebreus 1:1, o autor enfatiza essa verdade:

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.”

Isso demonstra que Jesus é o ápice da revelação de Deus. Embora ainda existam profetas nas igrejas, especialmente nas pentecostais, eles não possuem a mesma autoridade dos profetas do Antigo Testamento, que registravam a Palavra de Deus para as Escrituras.

Os profetas modernos não têm o poder autoritativo de acrescentar algo às Escrituras, como acontecia com os profetas do Antigo Testamento, mas Deus continua usando algumas pessoas com o dom de revelação para exortação, consolação, correção e ensino, especialmente em igrejas pentecostais e em comunidades que acreditam na atualidade dos dons do Espírito Santo. Nas igrejas cessacionistas, que acreditam que esses dons terminaram, isso não ocorre. Contudo, mesmo nas igrejas que creem na atualidade dos dons, as mensagens proféticas não têm a mesma autoridade dos profetas veterotestamentários, que foram escolhidos por Deus para registrar Suas palavras nas Escrituras, formando o Antigo Testamento. Esses escritos foram preservados para que hoje possamos entender e conhecer melhor a Deus e Sua vontade por meio das Escrituras.

É importante lembrar que, além de a Palavra de Deus ser essencialmente o Logos Eterno, ou seja, o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, ela também se manifestou de maneira audível. Isso permitiu que as mensagens divinas fossem registradas e escritas, formando o corpo de Escrituras que conhecemos hoje.

Nos próximos capítulos, vamos abordar a própria Bíblia: como ela foi formada, quem foram os escritores, o tempo necessário para sua composição, e vamos discutir sobre a confiabilidade dela. Também exploraremos as razões pelas quais podemos crer que a Bíblia é, de fato, a Palavra de Deus preservada. Portanto, todas essas mensagens, transmitidas audivelmente no passado, foram registradas para que hoje possamos acessar a vontade de Deus por meio das Escrituras. Você confia na Bíblia? Caso não, continue conosco.

Este livro é um convite à reflexão sobre o que significa ser um cristão genuíno em meio às distrações do mundo. Com base nas Escrituras, o autor apresenta uma jornada prática e espiritual que destaca valores como humildade, dedicação e fidelidade à Palavra. Ele aborda temas centrais da vida cristã — o novo nascimento, a mordomia, os perigos da dureza de coração — e utiliza parábolas e ensinamentos bíblicos para guiar o leitor pelo caminho estreito que conduz à vida eterna.
Escrito com paixão e clareza, a obra se coloca como um guia essencial para quem deseja amadurecer na fé, descobrir seu propósito no corpo de Cristo e viver de modo que glorifique a Deus em todas as áreas da vida. É um chamado ao autoexame e à transformação, conduzindo o leitor rumo ao verdadeiro Santuário.

Jamerson Silva Araújo é escritor, teólogo por vocação e discípulo de Cristo por convicção. Após anos de ceticismo, encontrou a fé ao estudar as Escrituras com o desejo de refutá-las — e acabou transformado por elas. É autor do livro Jornada ao Santuário e criador de conteúdos voltados à edificação da fé cristã com base no princípio do Sola Scriptura. Atualmente, dedica-se a projetos como "Até a Última Página", onde divide com os leitores a oportunidade de opinar e participar de seus futuros livros.

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